Que maquiavélico você é! Como você é ruim!

Nicolau Maquiavel (1469-1527)
Querido leitor, aqui inauguro a seção de posts chatos. E decidi começar por um texto que falasse sobre um dos meus autores preferidos, estudado no curso de Ciências Sociais: Nicolau Maquiavel. Enjoy!
Se houve um adjetivo na história da política, e mesma da vida privada, que foi continuamente usado para denegrir e desqualificar o outro lado do conflito, é aquele derivado do nome de Nicolau Maquiavel, pensador florentino do século XVI. Maquiavélico e maquiavelismo são termos comumente associados à maldade, à trapaça e à imoralidade. Até Shakespeare pegou no pé do cara, chamando-o de “The Murderous”. Além disso, é de senso comum que a frase “os fins justificam os meios” seja de autoria do pensador. Pois é, acontece que tio Nicolau nunca quis pregar a malevolência generalizada, muito menos proferiu tal frase. Cometemos calúnia das grossas a todo o momento! Tentemos entender o porquê.
Nascido em Florença, em 1469, Nicolau Maquiavel preocupou-se sempre, dentro de suas obras e em sua vida pública, em estudar e discorrer sobre o Estado e a política. Seu livro mais famoso e mais reconhecido é O Príncipe, inspiração mais direta para as fofocas de “mimimi-maquiavel-é-malvado” que surgiram depois.

Página de rosto da edição de 1580
A obra, feita como presentinho para Lourenço de Médici, Duque de Urbino, se propõe a ser uma espécie de “manual do governante”. A intenção é ajudar não apenas a conquistar o poder, mas mantê-lo consigo. Para atingir esse objetivo, explica Maquiavel, há de se fazer o que for necessário. Mas o “necessário” seria sinônimo de “qualquer coisa”? Bem, não exatamente. O autor, nesse sentido, trabalha sobre dois aspectos da vida política (e, por que não, da vida em geral), dois conceitos chaves de compreensão de seu pensamento: a fortuna e a virtù.
Meu deus Samuel, que diabos é isso?
Calma padawan, já explico.

Fortuna pagando peitinho e derramando a cornucópia... sexy!
A fortuna é uma mulher. Bem, não exatamente uma mulher, mas é bem parecida (machismo detected). Ela é o circunstancial, aquilo que acontece independente da vontade do homem, o imprevisível que pode favorecer uns e fuder prejudicar outros. Como uma mulher, indeed (tá tá, eu paro com as piadas machistas). Brincadeiras à parte, a fortuna de fato era associada a uma figura feminina:
“Para os antigos, a Fortuna não era uma força maligna inexorável. Ao contrário, sua imagem era a de uma deusa boa, uma aliada potencial, cuja simpatia era importante atrair. Esta deusa possuía os bens que todos os homens desejavam: a honra, a riqueza, a glória, o poder. Mas como fazer para que a Deusa fortuna nos favorecesse e não outros, perguntavam-se os homens da antiguidade clássica?” (SADEK, 1991, P. 21)
Qual a resposta da pergunta? Vejamos:
“Era imprescindível seduzi-la, respondiam. Como se tratava de uma deusa que era também mulher, para atrair suas graças era necessário mostrar-se vir, um homem de verdadeira virilidade, de inquestionável coragem. Assim, o homem que possuísse virtù no mais alto grau seria beneficiado com os presentes da cornucópia [quem já jogou Final Fantasy sabe o que é isso] da Fortuna.” (idem)
Simplificando, ter virtù era saber dominar a fortuna, pegar ela pelos cabelos, jogar na parede e chamar de Shirley! É a maneira pela qual o homem se aproveita ao máximo do que ela lhe dá, sabendo se virar se ela não der nada. Um bom governante, virtuoso, age conforme a necessidade para se manter no poder, e constrói seu próprio destino até onde consegue. Isso não significa, contudo, que ele possa fazer qualquer coisa! E é aqui que começa a treta (se alguém agüentou ler até aqui, continue; acho bem interessante).
Um ato só é virtuoso se o resultado dá certo. E o que é dar certo, no caso de um Príncipe? Ora, é alcançar tudo aquilo que a fortuna concede aos machos que a dominam: riqueza, honra, glória, sexo status, poder, fama e a segurança de seu povo. Maquiavel não disse, mas se tivesse dito, a frase seria “determinados fins impõem determinados meios, desde que esses meios levem efetivamente a esses determinados fins; que são a riqueza, a honra, a glória, etc” ao invés de “os fins justificam os meios”. Bem mais difícil de usar no dia a dia...
Então, concluindo: Maquiavel não prega a perversidade e a imoralidade. O que ele quer dizer, na real, é que a “perversidade” e a “imoralidade” são aceitas na medida em que são necessárias, assim como a “bondade” e a “benevolência”. Sendo assim, é necessário virtù para usar esses recursos no momento e na medida certa. Legalzinho, né?
Nicolau Maquiavel não apóia a crueldade e a violência, mas apenas as comporta dentro das possibilidades. Isso ocorre pois nosso querido florentino pensa na “realidade efetiva das coisas” (ou verità effetuale delle cose, para quem curte italiano), isto é, pensa na política como “ela é”, e não como “poderia ser”. A política tem uma lógica e uma ética própria, não se guia pela moral cristã ou qualquer outro código externo, a não ser quando a ocasião assim impõe. No fim, O Príncipe não ensina ninguém a ser “do mal” ou “do bem”, simplesmente porque para a política isso não existe! O que existe são os homens virtuosos e os não-virtuosos, capiche?
Espero que este tópico bobo diminua as calúnias cotidianas contra Maquiavel! Abraço!
BIBLIOGRAFIA
MAQUIAVEL, Nicolau. O Príncipe. 1ª edição. Porto Alegre: LP&M Pocket, 2008.
SADEK, Maria Tereza. Nicolau Maquiavel: o cidadão sem fortuna, o intelectual de virtù. In: WEFFORT, Francisco C. (Org). Os Clássicos da Política – Volume 1. 2ª edição. São Paulo: Ática, 1991. P. 11-24.